"Mataram a mulher?" A gênese do linchamento que chocou o Brasil

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AVISO:O que você vai ler a seguir é revoltante:


No dia em que seria espancada até a morte por uma multidão furiosa, Fabiane Maria de Jesus acordou ansiosa para estrear sua nova aparência. Cansada da longa cabeleira negra, mandara cortá-la à altura do pescoço e, na noite anterior, logo que o marido saiu para seu trabalho noturno, resolveu mudar a cor dos cabelos. Descoloriu-os com água oxigenada e pintou-os de loiro. Eles ganharam uma cor de fogo, entre o vermelho e o amarelo. Concluída a mudança visual, Fabiane tomou o remédio para dormir que lhe fora receitado havia três semanas, e adormeceu de cabelos novos na sua última noite de mulher faceira. De manhã cedo, vestiu um short jeans, uma blusa tomara que caia e uma jaqueta, também de jeans, e colocou um boné para esconder os cabelos novos. Pronta, pegou a bicicleta e saiu para passear. Sua sogra, Maria de Jesus, que mora no andar de cima da casa, percebeu no ar o movimento matinal de Fabiane:
— Eu senti o cheiro do perfume dela.
Precipitou-se até a varanda do andar de cima para lhe falar, mas Fabiane já dobrava a esquina de bicicleta.
Foi a última vez que a viu.

Era quase meio-dia, Fabiane já passara na casa de uma prima e já pedalara pela Praia das Pitangueiras quando resolveu ir até o serviço do marido, que ainda não tinha visto seus cabelos novos. Jaílson, seis anos mais velho que Fabiane, trabalhava à noite na portaria da colônia de férias do Banespa, na Praia das Astúrias. Costumava voltar para casa antes da 1 da tarde. Naquele dia, quando Fabiane chegou, ele acabara de deixar o trabalho.

— Soube depois que fazia uns dez minutinhos que eu tinha saído quando ela chegou — diz o viúvo.
Foi a última vez que se desencontraram.

No fim da tarde daquele sábado, 3 de maio de 2014, Fabiane Maria de Jesus, 33 anos, casada, mãe de duas meninas, uma de 12 anos e a outra de apenas 1 ano, estava internada na UTI do Hospital Santo Amaro, no Guarujá, litoral de São Paulo, em estado gravíssimo, depois de passar quase uma hora sendo amarrada, arrastada, chutada e espancada por uma multidão que a confundiu com uma mulher que, diziam, andava sequestrando crianças para arrancar-lhes o coração em rituais de magia negra. Após resistir por 36 horas, Fabiane morreu na manhã de segunda-feira, 5 de maio. Seu corpo, dentro de um caixão branco e cor-de-rosa, está na última gaveta do cemitério Jardim da Paz, a G-119. Não há cemitério feliz, mas há cemitérios mais tristes que outros. Ali, as sepulturas são de uma simplicidade precária, com flores de plástico e anjinhos de gesso encardido, e as datas de nascimento e morte nas lápides informam a alarmante juventude dos mortos.

 No dia 24 de abril, quinta-feira, apareceu um alerta tenso no Facebook, a rede social que Morrinhos inteiro conhece e acessa. A sequestradora fora vista num bairro ali perto. O perigo estava próximo”


Morrinhos é um bairro da periferia do Guarujá onde moram 20 000 pessoas. Dividido em quatro partes, as duas primeiras têm casas de alvenaria, ruas pavimentadas e um comércio que pendura no umbral das portas as mercadorias à venda. As outras duas são mais pobres, com ruas de terra, esgoto a céu aberto, barracos de madeira ou zinco erguidos sobre palafitas numa área de mangue, e uma violência endêmica. Os rumores sobre a sequestradora de crianças apareciam e sumiam na periferia, mas em abril de 2014 começaram a ganhar proporções inauditas e um clima de pânico baixou sobre Morrinhos. Habituadas à insegurança pública e à ausência da polícia, as mães começaram a proibir os filhos de brincar na rua. Algumas decidiram não mandá-los mais à escola. Uns ouviam que a sequestradora arrancava o coração das crianças. Outros, que arrancava também os olhos dos pequenos.

No dia 24 de abril, quinta-feira, apareceu um alerta tenso no Facebook, a rede social que Morrinhos inteiro conhece e acessa. Uma usuária escreveu um post informando que a sequestradora fora vista na Maré Mansa, bairro ali perto. O perigo estava próximo. No dia seguinte, a página do Guarujá Alerta, serviço que havia tempos denunciava crimes e dava dicas de segurança no Facebook, informou que “uma mulher está raptando crianças para realizar magia negra”. O post acrescentou que a mulher estaria atuando na região de Praia do Pernambuco, Maré Mansa, Vila Rã e Areião, tudo no Guarujá, nada longe de Morrinhos. Ele trazia o retrato falado da criminosa, e concluía: “Durante toda essa semana recebemos diversas mensagens de seguidores sobre o fato. Se é boato ou não, devemos ficar alertas”.

O aviso do Guarujá Alerta provocou uma cascata interminável de reações de raiva, medo ou ameaça. Um usuário disse que pensava que a história da sequestradora era boato, mas interpretou o post do Guarujá Alerta como uma confirmação. Outro perguntou onde havia fotos “desse monstro”. Outro disse que se ela aparecesse em Morrinhos ia “tomar só rajada, essa cachorra”. Outro pediu uma foto “dessa bruxa” e avisou que “ela vai ter o que merece”. Outro disse que o caso estava deixando “pais e filhos assustados aqui no bairro”. Outro avisou que, se a mulher aparecesse no seu bairro, ela seria linchada, a “vagabunda”, “safada”, “essa pilantra”, “coração de pedra”, “sua possuída”. Outro avisou que a mulher era procurada no Paraná, onde havia tentado sequestrar “uma criança em uma creche em Pontal do Paraná”. Outro, com uma certeza cheia de pontos de exclamação, informou que “acabaram de sequestrar uma criança no bairro do Areião!!!!!!!!!”. Outro comentou que “tem que matar essa mulher”. Outro avisou que “falam que ela tem um Fox preto”. Outro aproveitou para dizer que uma mulher vestida de enfermeira andava espetando uma seringa nas pessoas para infectá-las com o vírus HIV. Outro disse que “na última terça-feira” tinham encontrado duas crianças mortas no bairro da Maré Mansa, “ambas sem o coração”. Outro garantiu que a sequestradora “pegou um menino daqui do nosso bairro”. As conversas se prolongaram por onze páginas, todas depois recolhidas pela polícia e anexadas ao inquérito.

No dia 27 de abril, domingo, o Facebook fervilhava. Uma usuária, que se identificou como Noelia dos Santos, disse que “tem uma sequestradora de crianças pela redondeza” e também divulgou um retrato falado. Explicou que ela sequestrava sozinha e “em alguns casos ela chega até a tomar a criança dos braços da mãe à força”. Informava que a criminosa já pegara “mais ou menos umas 37 crianças para fazer magia negra”. Seu post foi largamente compartilhado. A revolta desdobrou-se em adjetivos: “vagabunda, tem que morrer”, “quem é essa vaca?”, “vadia”. Alguém disse que ela era morena. E alguém replicou que ela havia tingido os cabelos de loiro “para disfarçar”.

No dia 29 de abril, terça-feira, a página do Guarujá Alerta divulgou um post extenso, com três links, mostrando dessa vez que era tudo boato. Não havia nenhuma sequestradora de crianças no Guarujá nem nas redondezas. Morrinhos podia continuar sua vida em paz. Já na abertura, o post afirmava que muitos usuários não leriam o comunicado até o fim, mas dizia que deveriam fazê-lo para não sair “por aí ajudando a espalhar ainda mais um boato”. Dizia que não havia nenhum boletim de ocorrência de criança sequestrada, nem de crianças encontradas mortas sem coração. Um link dava acesso a uma matéria que afirmava que o boato vinha do Rio de Janeiro. Outro mostrava que a foto da “sequestradora” era usada por uma “página de humor no Facebook” que já fora curtida por “mais de 937 000” pessoas. O terceiro link levava a uma reportagem que informava que na cidade de Três Rios, no Rio de Janeiro, circulava o mesmo boato com o mesmo retrato falado. E alertava: “Infelizmente, muitas pessoas usam as redes sociais sem nenhuma responsabilidade”. E terminava frisando: “Então, mais uma vez, tudo isso não passa de uma enorme mentira para assustar a população”.

O administrador da página do Guarujá Alerta é um jovem que mora com a família e depôs sob segredo de Justiça. Nos autos do processo, ele é a “Testemunha A”. Ele conta que divulgou o post no dia 25 de abril informando sobre o boato e o retrato falado da tal sequestradora, mas “duas ou três horas depois”, alertado de que talvez fosse um boato, retirou tudo do ar e foi pesquisar o assunto. Quatro dias depois, postou o extenso aviso com os três links, informando que era boato. “Fiz isso porque o assunto tinha virado febre na cidade”, diz. “Recebi mensagem de uma diretora falando que tinha suspendido as aulas porque a sequestradora estava na porta da escola. Outra mulher dizia que a sobrinha tinha sido sequestrada. Não parava. Eu dizia para a minha mãe: ‘Mãe, não aguento mais, isso não para nunca’.” Mas o desmentido caiu no vazio. Os avisos e confirmações de que havia, sim, uma criminosa à solta não paravam de pipocar no Facebook. Diz a Testemunha A: “Eu nem lia mais os posts. Respondia já no automático: ‘é boato, é boato, é boato, é boato’ ”.

Diante da força diabólica dos boatos e da credulidade apressada de uma população desamparada, nenhum desmentido surtia efeito. A Testemunha A teve a ideia de pedir à Polícia Militar que divulgasse uma nota à imprensa colocando as coisas nos devidos lugares. Ele reproduziria a nota na sua página e quem sabe conseguiria conter os rumores. Mas a PM achou que o assunto não lhe dizia respeito, pois não recebera nada “oficialmente”. Com a omissão policial, os 20 000 moradores de Morrinhos continuaram às tontas com um boato que aterrorizava parte da população e cujo desfecho viria a ser o episódio mais dramático da história da comunidade.



Quando não encontrou o marido na colônia de férias do Banespa, Fabiane voltou para Morrinhos, a comunidade onde cresceu cercada por parentes. De bicicleta, passou na Igreja São João Batista, perto de sua casa, para apanhar a Bíblia que esquecera ali dias antes. Foi até o trabalho de uma irmã, em uma pequena mercearia, mas não a encontrou. Quando ia para a casa de uma prima, resolveu parar num bar. Ali, naquele bar em Morrinhos, perto da Padaria Central, a história evapora-se num mistério. O que aconteceu dentro do bar, ou na porta do bar, ou na frente do bar é uma incógnita que a investigação policial não esclareceu. A versão mais divulgada diz que, na frente do bar, Fabiane ofereceu uma banana a uma criança da rua, e alguém tomou seu gesto como o início de um sequestro. Essa versão, ainda que seja a mais veiculada pela imprensa, não é confirmada por nenhuma testemunha no inquérito policial. A outra, segundo a qual a Bíblia que Fabiane carregava foi confundida com um livro de magia negra, também não é corroborada por nenhuma testemunha.
O que se sabe é que Fabiane pintara os cabelos no dia anterior. Que, mesmo sendo uma antiga moradora de Morrinhos, quem a viu de longe não a reconheceu com aqueles cabelos curtos e claros. Que as vozes do boato no Facebook espalharam que a sequestradora era morena, mas ficara loira “para disfarçar”. Que os usuários da rede social também divulgaram, junto ao retrato falado da suposta sequestradora, a fotografia colorida da criminosa. Que a fotografia era de uma mulher de cabelos curtos, encaracolados e loiros que havia morado em Morrinhos alguns anos atrás, coincidência que pode ter sido um acaso dramático, ou algum usuário do Facebook teve a ideia demoníaca de escolher a foto da ex-namorada para dar mais credibilidade ao boato.

Só uma testemunha, interrogada pela polícia, apresentou uma versão mais ou menos completa sobre o começo do linchamento de Fabiane. Maria das Dores Alves de Souza, 50 anos, a dona do bar, diz que Fabiane entrou no seu estabelecimento, pediu um copo e sentou-se à mesa de um homem com quem compartilhou uma cerveja. Quem é o homem? Maria das Dores diz que era um “doidinho”, que nunca mais apareceu no bar. Jaílson, o viúvo, diz que sua mulher não tinha o hábito de beber e evitava o álcool desde que começara a tomar remédios para conter uma crise de transtorno bipolar. Maria das Dores era, ela própria, uma das suspeitas de ter atiçado a multidão contra Fabiane. Ela nega. Diz que estava no fundo do bar, temperando o frango que vendia aos domingos, quando ouviu alguém dizendo que Fabiane era a sequestradora de crianças do Facebook. A polícia descobriu apenas que, em algum momento, uma voz feminina gritou a senha para o massacre:
— É eeeeeelaa!
A multidão caiu em cima de Fabiane.
Há várias imagens do linchamento, captadas por celulares, que podem ser vistas na internet. São cenas curtas, filmadas por pessoas diferentes, de ângulos diferentes, sem uma sequência lógica, mas compõem a narrativa brutal do que Fabiane sofreu no tumulto dos seus últimos momentos de vida.
Uma cena: Fabiane está sentada no chão de terra, zonza, rosto banhado de sangue, alguém a interroga, ela tenta abrir os olhos, abre apenas um, balbucia algo.
Outra: ela está sendo carregada pelos pés e mãos, uma multidão a segue aos gritos, xingando, berrando, clamando por sua morte.

Outra: ela está de bruços, no meio da rua, o rosto enterrado no chão, alguém levanta sua cabeça pelos cabelos, confere seu rosto, e bate sua cabeça de volta no chão.
Outra: ela está deitada no chão, um rapaz bate com o pneu da bicicleta contra sua cabeça, uma, duas vezes.

Outra: alguém a arrasta pelo chão, puxada por um fio elétrico amarrado em seu pulso esquerdo, seu corpo vai rasgando o chão de terra, inerte.

Outra: ela está estirada no chão, de barriga para cima, o braço direito abandonado ao longo do corpo inanimado, o outro braço um pouco mais aberto. Nada nela se move. Está morta, ou inconsciente, desmaiada. As pessoas cercam seu corpo, olham, falam, mas mantêm uma certa distância, como se tivessem medo de ficar perto da morte. De repente, ela começa a erguer lentamente a cabeça. “Ela está viva, ela está viva.” Mas o peso da cabeça é excessivo, ela desfalece de novo. Volta a ficar imóvel.

Cena final: ela está com os pés e as mãos amarrados, de bruços, numa passarela de madeira a 1 metro do chão, alguém a empurra para fora da passarela, ela rola e cai sobre um colchão velho no meio do lixo, seu corpo imóvel, e então alguém se aproxima com um pedaço de pau de 1 metro de comprimento e desfere uma pancada brutal na sua cabeça. No meio da multidão, ouve-se uma voz:

– Mataram a mulher?
Na recognição visuográfica, em que o policial relata tudo o que viu e soube na cena do crime, consta a seguinte descrição: “Os moradores então passaram a agredi-la covardemente com pedaços de pau, caibros, cordas, chutes e ainda a arrastaram por vários metros até jogá-la em cima de um colchão”. Uma testemunha, Jonas Tiago Andrade, disse à polícia que “até crianças portavam facas no intuito de machucar a moça”. Outra, que confessou ter agredido Fabiane, contou que “várias crianças estavam com madeira na mão” ameaçando bater na vítima.

O corpo de Fabiane, segundo o laudo necroscópico, tinha “escoriações nos joelhos direito e esquerdo, coxa direita, ombro direito, antebraço direito e nariz” e “ferimentos corto-contusos no frontal esquerdo, parietal esquerdo e lateral do lábio”. No exame interior, o legista viu “extensa hemorragia intra e extradural, fratura nas regiões parietais direita e esquerda e contusão pulmonar à esquerda com hemorragia no hemitórax esquerdo”. Em linguagem comum: quebraram o crânio de Fabiane e provocaram sangramento dentro da cabeça, além de sangramento no lado esquerdo do tórax. A causa da morte: “traumatismo cranioencefálico e fratura de crânio”. Se tivesse sobrevivido, ela poderia ficar com sequelas graves e permanentes.

 
GAVETA G-119 - O sepultamento de Fabiane, no cemitério Jardim da Paz, que teve ampla cobertura da imprensa (Foto: Rogério Soares)


Na madrugada do dia 13 de março de 1964, Kitty Genovese, uma jovem de 28 anos, foi atacada por um desconhecido que lhe deu duas facadas nas costas e fugiu. Pouco depois, o criminoso voltou, encontrou a jovem no chão e esfaqueou-a de novo, estuprou-a e levou 49 dólares. Na meia hora que durou o martírio de Genovese, noticiou-se na época que 38 vizinhos ouviram seus gritos e nada fizeram. A indiferença escandalizou Nova York e despertou o interesse de dois psicólogos. Queriam entender as razões da apatia dos espectadores enquanto Genovese era assassinada. Descobriu-se mais tarde que menos pessoas ouviram seus gritos, e não 38, e houve até quem tivesse chamado a polícia. Ainda assim, os pesquisadores prosseguiram com o estudo e fizeram uma constatação surpreendente: quanto mais gente estiver no local de um crime ou acidente, menor a chance de a vítima ser socorrida. O paradoxo não decorre da indiferença humana ao sofrimento alheio, mas da redução de responsabilidade individual que todos nós sentimos quando estamos em multidão.

O “efeito espectador”, ou “efeito Genovese”, como ficou conhecido esse comportamento de aparente apatia, pode explicar por que tantas pessoas agrediram Fabiane ou incitaram a agressão contra ela e tão poucas tentaram socorrê-la. O advogado Airton Sinto, que trabalha para a família de Fabiane, acha que havia entre 200 e 300 pessoas no ato de linchamento. Uma das testemunhas calcula que havia até 1 000 pessoas. Outra estima que, no momento em que a polícia chegou, já com Fabiane inconsciente sobre o colchão no lixo, havia 3 000 pessoas. Não se sabe o número exato, porém duas coisas são certas: nem todos ali tinham certeza de que a mulher linchada era a criminosa, mas contam-se nos dedos os que tentaram defendê-la.

Jonas Andrade, a testemunha que fala de crianças armadas com facas, estava no seu barraco, nas palafitas do mangue, quando ouviu a gritaria lá fora. Viu “uma multidão caminhando pelas palafitas, arrastando uma mulher, que foi jogada bem em frente à sua casa”. Em seu depoimento, ele diz que tentou dissuadi-los alegando que não havia prova contra Fabiane. Nesse momento, “um rapaz” pegou “um pedaço de madeira e a golpeou violentamente na cabeça”. Andrade tentou impedir, mas não conseguiu. Durante 28 minutos, entre 14h26 e 14h54, o serviço da Polícia Militar recebeu onze telefonemas de onze números diferentes denunciando o linchamento e pedindo socorro.
 
Quando os policiais chegaram, a multidão os impediu de socorrer Fabiane. Alguém tomou a iniciativa de mediar um acordo: os policiais poderiam ajudá-la desde que a imprensa acompanhasse tudo. A multidão aceitou, a imprensa foi chamada. Camila Monique Cunha Vieira, 28 anos, outra testemunha, diz que estava no meio da multidão, junto com sua irmã e sua mãe, viu Fabiane sendo agredida e achou que não era a mesma pessoa da foto divulgada no Facebook. A transcrição do depoimento de Camila Monique explica por que elas não ajudaram Fabiane: “A depoente alega que nada podiam fazer, pois a multidão estava enraivecida, e, caso fossem fazer a defesa da mulher, com toda a certeza seriam agredidas, pois todos tinham convicção de que ela era a sequestradora”. O padeiro Roberto Carlos dos Santos, 28 anos, também morador das palafitas, reconheceu a própria voz nos vídeos em poder da polícia ordenando que ninguém batesse “na mulher porque nada tinha sido comprovado”. Não adiantou nada.

UM SUSPEITO - Valmir Dias Barbosa, 50 anos, pai de cinco filhos e autor confesso da “paulada na cabeça da vítima” (Foto: Fernanda Luz/Tribuna de Santos)


No Brasil, a cada dia ocorrem quatro linchamentos, ou tentativas de linchamento, numa rotina de brutalidade que só rivaliza com os pontos mais infernais do planeta. Mas a morte de Fabiane teve repercussão incomum. Os jornais a noticiaram em toda a largura das páginas, o enterro de Fabiane teve ampla cobertura, o Fantástico, da Rede Globo, exibiu reportagem de oito minutos e meio no domingo seguinte. O choque nacional se devia à brutalidade do linchamento, exposta cruamente nas imagens de celular, e também ao equívoco que levou a multidão a linchar a “pessoa errada”. Fabiane era uma dona de casa pacata, casada havia dezesseis anos, religiosa que frequentava a Igreja de São João Batista, mãe amorosa de duas filhas. Se a multidão tivesse linchado a “pessoa certa”, talvez o crime do Guarujá tivesse sumido sob o mesmo silêncio que cobre a imensa maioria dos linchamentos que ocorrem no país.
 
MAIS DOIS SUSPEITOS - Carlos Alex Oliveira de Jesus, 25 anos, e Lucas Rogério Fabrício Lopes, 20 anos (Foto: Fernanda Luz/Tribuna de Santos)


Das 300, ou 1 000, ou 3 000 pessoas presentes, a polícia indiciou cinco. Todos homens, e todos, à exceção de um, admitiram algum grau de envolvimento. Lucas Rogério Fabrício Lopes, “20 anos, branco, ajudante-geral”, reconheceu ter batido com a bicicleta em Fabiane, mas disse que não teve “intenção de matar ninguém”. Jair Batista dos Santos, “36 anos, pardo, carpinteiro”, disse que jogou Fabiane da passarela, mas o fez para protegê-la da fúria coletiva. Carlos Alex Oliveira de Jesus, “25 anos, branco, sem profissão definida”, afirmou ter levantado a cabeça de Fabiane pelos cabelos, quando ela estava de bruços, e depois ter batido “com a cabeça dela no chão”. Abel Vieira Batalha Junior, “19 anos, pardo, sem profissão definida”, nega qualquer agressão. Valmir Dias Barbosa, “50 anos, branco, sem profissão definida”, pai de cinco filhos, confessou ter dado “uma paulada na cabeça da vítima”, mas ressalvou que sua motivação “não foi de matar, mas apenas de revolta”. Todos estão presos à espera de julgamento.

O sociólogo José de Souza Martins, autor de Linchamentos — A Justiça Popular no Brasil, calcula que, nos últimos sessenta anos, entre 1 milhão e 1,5 milhão de brasileiros participaram de um linchamento ou tentativa de linchamento. É um sintoma de desagregação social, mas não é só coisa de desordeiros. Também envolve gente que está numa busca desesperada por ordem e segurança, gente que está exausta com a incompetência do poder e das instituições para garantir a paz social. Essas pessoas lincham para punir o criminoso, para vingar-se. As pesquisas mostram que, em geral, os linchamentos duram de cinco a vinte minutos, contam com mais de 200 pessoas, ocorrem em lugares abertos, nas grandes cidades, e as vítimas são homens. No bairro em que já houve um linchamento, é mais provável que haja outro, como se a consciência social daquela comunidade estivesse rompida. Um ano depois do linchamento de Fabiane, A Tribuna, que circula no Guarujá, noticiou que as redes sociais difundiam novo boato sobre um casal de sequestradores em São Vicente, no litoral paulista. O jornal dizia que era só boato. A Testemunha A recebeu e-mail de um amigo. Dizia: “Está começando tudo de novo”.

A Testemunha A não foi indiciada. Fechou a página do Guarujá Alerta, perdeu o emprego, escondeu-se com medo de agressões, até mudou de cidade por um tempo, mas voltou para o Guarujá. Conta que um dia viu Jaílson, o viúvo, na fila de uma casa lotérica, mas não falou com ele. Hoje, sua rotina voltou a incluir o mundo digital. “Mexo nas redes sociais normalmente.” Jaílson, que há quatro anos doou seu computador a um centro espírita, está novamente conectado. “Mandei montar um computador, porque sai mais barato”, disse. Como monitor, usa sua TV de 32 polegadas. O advogado Airton Sinto sugeriu ao deputado federal Ricardo Izar que apresentasse um projeto criminalizando quem difunde boatos na internet. O projeto está em tramitação. A rua onde mora a mãe de Fabiane, em Morrinhos, chamava-se Travessa 222. Por iniciativa de um vereador amigo da família, chama-se agora “Rua Fabiane Maria de Jesus”. A bicicleta que Fabiane usava quando foi linchada nunca mais apareceu. 

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